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A neurobiologia da leitura e da escrita: o que o RENABE apresenta a quem alfabetiza

  • Foto do escritor: Joarita Nazaro Dauwe (Jô)
    Joarita Nazaro Dauwe (Jô)
  • há 10 minutos
  • 9 min de leitura

O capítulo A neurobiologia da leitura e da escrita, do Relatório Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências (RENABE), apresenta uma revisão da literatura neurocientífica com uma proposta didática: compreender o que acontece no cérebro da criança quando ela aprende a ler e escrever. Seu ponto de partida é a linguagem oral e a forma como, durante a alfabetização, redes neurais inicialmente relacionadas a outras funções passam a integrar a arquitetura cerebral da leitura e da escrita. Os autores sintetizam essa relação ao explicar que, quando aprendemos a ler e escrever, essas redes neurais “pegam carona” nos circuitos neurais da linguagem oral.


Aprender a ler não é natural como aprender a falar

Uma das distinções centrais está entre o desenvolvimento da linguagem oral e a aprendizagem da linguagem escrita. Nos primeiros anos de vida, o cérebro apresenta intensa plasticidade cerebral, com formação de sinapses e posterior poda sináptica, processo pelo qual conexões pouco utilizadas são removidas, enquanto circuitos mais eficientes e frequentemente ativados permanecem. É nesse período que a linguagem oral se desenvolve a partir das interações da criança com outras pessoas.


A leitura, diferentemente, é uma invenção cultural e não possui uma rede cerebral natural previamente destinada a ela. Com a aprendizagem da leitura, uma nova arquitetura funcional se estabelece a partir da adaptação de redes já existentes, especialmente aquelas relacionadas à linguagem oral, aos processos visuais e associativos.


Essa distinção tem uma consequência importante para a alfabetização: a habilidade de decodificar, ou seja, de relacionar grafemas aos fonemas não emerge simplesmente da interação da criança com livros e textos, elas precisam ser ensinadas. Os autores apresentam como robusta a evidência em favor da instrução fônica sistemática, compreendida como um ensino dirigido, planejado e frequente dedicado à aprendizagem da relação entre fonemas e grafemas. 


A aprendizagem da leitura modifica o funcionamento do cérebro

À medida que a criança aprende a ler, diferentes redes cerebrais passam por adaptações. Com o desenvolvimento da leitura fluente, as redes relacionadas à leitura e à compreensão oral tornam-se progressivamente mais sobrepostas. Além disso, regiões que originalmente não estavam envolvidas com a linguagem passam a desempenhar funções importantes para a leitura, especialmente a associação entre letras e sons e o reconhecimento da forma visual das palavras.


O capítulo destaca sistemas posteriores associados à leitura. Um deles envolve a região occipitotemporal esquerda, relacionada à identificação da forma visual das palavras. Na região parietal inferior esquerda, especialmente nos giros angular e supramarginal, encontram-se áreas que participam do processamento fonológico e da integração entre informações gráficas e sonoras. Essas regiões fazem parte de uma rede distribuída de leitura, cuja organização se modifica com a aprendizagem.


A região occipitotemporal e a identificação da forma visual das palavras

região occipitotemporal assume papel importante na identificação da forma visual das palavras. Sua ativação está relacionada à proficiência em leitura e, com a experiência, essa região se torna progressivamente especializada para letras e símbolos conhecidos.


Essa especialização decorre da aprendizagem. É nesse contexto que o capítulo apresenta o conceito de reciclagem neuronal, associado aos trabalhos de Stanislas Dehaene: sistemas cerebrais originalmente envolvidos em outras funções passam por adaptações para responder às exigências culturais da leitura.


Um exemplo particularmente interessante é o espelhamento de letras. Nosso sistema visual é naturalmente capaz de reconhecer objetos mesmo quando sua orientação horizontal muda. Uma caneca continua sendo uma caneca, esteja sua alça voltada para a direita ou para a esquerda. Para ler, entretanto, a criança precisa aprender que essa mesma invariância não pode ser aplicada indiscriminadamente às letras, pois a orientação pode alterar sua identidade, como ocorre entre b e d. O espelhamento observado no início da alfabetização é relacionado à necessidade de adaptação dos sistemas visuais para a leitura.


Ao mesmo tempo, algumas invariâncias precisam permanecer. A criança deve reconhecer diferentes fontes, tamanhos e formas gráficas como representações da mesma letra. Essa representação abstrata das letras será importante também para a escrita.


Giros angular e supramarginal e as rotas da leitura

Na porção inferior do lobo parietal esquerdo estão o giro angular e o giro supramarginal, regiões que formam um centro de mapeamento dos sons da linguagem com suas formas escritas. Sua ativação está relacionada à aprendizagem da associação entre letras e sons e constitui um marcador neural da aprendizagem da leitura. 


Essas regiões integram a rota dorsal, também chamada rota fonológica, associada à habilidade alfabética e ao estabelecimento das correspondências entre grafemas e fonemas. Já a rota ventral, ou rota lexical, está mais relacionada à habilidade ortográfica e ao reconhecimento automático das palavras. As duas rotas fazem parte da rede de leitura, mas participam de maneira diferente conforme a experiência do leitor e as características do sistema de escrita. 


Um dado especialmente relevante é que a ativação do giro angular e do giro supramarginal tem sinalizado a eficácia de programas de intervenção em leitura. Quando a remediação é eficaz, a ativação dessas regiões em leitores com dificuldades passa a se aproximar daquela observada em bons leitores. Esse achado evidencia a plasticidade das redes neurais da leitura e mostra que a aprendizagem e a intervenção podem modificar seu funcionamento. 


Alterações no funcionamento de regiões posteriores da rede de leitura, especialmente nas regiões occipitotemporal e parietal inferior, estão associadas a dificuldades na aprendizagem da leitura e ao risco para dislexia do desenvolvimento. 


Dislexia do desenvolvimento e a importância da intervenção precoce

O capítulo também dedica uma seção à dislexia do desenvolvimento, apresentada como um transtorno do neurodesenvolvimento e classificada como transtorno específico de aprendizagem. Sua base psicológica é associada principalmente a déficits em processos fonológicos e às dificuldades em traduzir grafemas em fonemas e vice-versa e consolidar essa aprendizagem.


São discutidas alterações funcionais e anatômicas em regiões relacionadas à leitura, especialmente nas regiões occipitotemporal e parietal inferior, além de diferenças na comunicação entre regiões cerebrais por meio de estruturas como o fascículo arqueado, relacionado à rota fonológica, e o fascículo longitudinal inferior, relacionado à rota lexical. 


Um ponto particularmente relevante para a educação é a discussão sobre o paradoxo da dislexia. Muitas vezes, espera-se tempo demais para intervir, justamente quando intervenções precoces poderiam produzir melhores resultados. Os autores chamam atenção para o fato de que atrasos na linguagem oral e na alfabetização podem justificar intervenções mesmo antes da confirmação diagnóstica. A proposta é superar a lógica do “esperar para ver”.


Neurobiologia da escrita

Na segunda parte do capítulo, o foco se desloca para a neurobiologia da escrita, especialmente para a escrita à mão.


A escrita manuscrita é descrita como um ato motor fino e rápido, cuja aprendizagem envolve o desenvolvimento de automaticidade gestual e memória do gesto motor. A automatização do gesto gráfico reduz a demanda de atenção e de controle consciente sobre os aspectos básicos da formação das letras. As funções executivas, entretanto, continuam sendo necessárias para planejar, organizar, revisar e produzir textos. Na escrita fluente, não precisamos pensar conscientemente na forma de cada letra toda vez que a produzimos. Caso isso fosse necessário, escrever permaneceria uma atividade excessivamente laboriosa.


No início da aprendizagem, há maior envolvimento dos sistemas somatossensoriais e visuais. A criança precisa construir mentalmente a forma das letras e aprender os movimentos necessários à sua produção. Progressivamente, aumenta o envolvimento de redes neurais especializadas relacionadas ao controle automático da escrita fluente.


O capítulo descreve processos que envolvem acesso ao léxico mental e fonológicoplanejamento do traçadoassociações grafo-motoras e, finalmente, execução neuromotora. Na escrita fluente e automatizada, esses processos passam a ocorrer rapidamente.


Outro conceito importante é o de representação abstrata das letras. O cérebro mantém informações espaciais relativas à forma, às proporções e à orientação das letras. Essa representação funciona como uma espécie de imagem mental do traçado da letrae permanece relativamente constante mesmo quando mudam o tamanho da letra, a velocidade da escrita ou o instrumento utilizado.


O “cérebro da escrita”

A escrita envolve uma rede neural distribuída, com a participação de diferentes áreas cerebrais relacionadas ao planejamento, à programação e à execução motora, à representação das letras e à integração com os sistemas de linguagem.


O córtex pré-motor dorsal, incluindo a área de Exner, está relacionado à preparação e à execução da escrita, enquanto o sulco central participa do comando dos movimentos da mão.


Esses sistemas não funcionam isoladamente. As regiões relacionadas à escrita interagem com as redes neurais da linguagem e da leitura. O capítulo ressalta a interação entre os sistemas visual, auditivo, motor e da fala e identifica uma sobreposição entre leitura e escrita na região occipitotemporal esquerda.


O córtex parietal superior participa da representação abstrata da forma das letras e da interface entre áreas da linguagem e áreas motoras. O cerebelo direito, por sua vez, relaciona-se ao controle e à retenção das habilidades motoras finas associadas à escrita. Durante a aprendizagem, as crianças apresentam maior participação de regiões relacionadas ao controle atencional. Com a consolidação da aprendizagem, ocorre a passagem de um processo mais laborioso para outro progressivamente mais fluente e automático.


Ao sintetizar as bases neurais dos gestos manuscritos, o capítulo destaca três componentes fundamentais: representação abstrata das letras, planejamento do traçado e controle motor refinado.


Leitura, escrita e automaticidade

Nas considerações finais, os autores retomam uma ideia que atravessa todo o capítulo: a alfabetização depende da integração entre fala, audição, visão e motricidade. As redes neurais relacionadas à linguagem oral, à leitura e à escrita apresentam especificidades, mas são interdependentes e possuem também áreas de sobreposição.


Nesse processo, a automatização ocupa lugar central. O cérebro humano possui limites de capacidade de processamento. Quando habilidades fundamentais continuam exigindo grande quantidade de atenção e controle consciente, consomem recursos necessários a funções cognitivas superiores. Por isso, a consolidação e a automatização dos fundamentos permitem que esses recursos sejam utilizados em processos mais complexos, entre eles a compreensão de textos.


Automaticidade, portanto, não significa simplesmente mecanização. Trata-se da consolidação de processos fundamentais para que eles deixem de impor um custo excessivo ao sistema cognitivo e possam sustentar uma leitura e uma escrita progressivamente mais fluentes.


O capítulo também reforça a importância da intervenção precoce. As habilidades fundamentais desenvolvidas nos primeiros anos são apresentadas como importantes preditoras da formação de bons leitores, e a mera exposição aos textos não se mostrou suficiente para desenvolvê-las. Quanto mais cedo uma dificuldade é reconhecida e recebe intervenção adequada, melhores tendem a ser as possibilidades de resposta.


O que esse capítulo nos ensina sobre alfabetização?

A principal contribuição deste capítulo está em mostrar que ler e escrever são aprendizagens culturais que modificam funcionalmente o cérebro. A criança não nasce com uma rede cerebral especializada e pronta para a leitura e a escrita. Ela dispõe, contudo, de sistemas neurais que sustentam a linguagem, a percepção e a ação; com o ensino e a experiência, esses sistemas são reorganizados e conectados para apoiar a leitura e a escrita.


Aprender a ler envolve, entre outros processos, estabelecer e consolidar associações grafema-fonema, adaptar sistemas visuais para a identificação da forma escrita e desenvolver progressivamente maior automaticidade na leitura. Aprender a escrever envolve construir representações abstratas das letras, desenvolver o planejamento do traçado, estabelecer associações grafo-motoras, aprimorar o controle motor refinado e alcançar progressivamente automaticidade gestual.


A neurobiologia apresentada no RENABE não oferece uma receita pedagógica baseada em imagens do cérebro. Ela nos oferece algo mais importante: uma compreensão científica dos processos que sustentam a aprendizagem da leitura e da escrita e dos motivos pelos quais ensino, prática, consolidação, acompanhamento e intervenção precoce ocupam lugar tão importante na alfabetização.


Para refletir

“O professor não precisa ser neurocientista para alfabetizar, mas compreender como o cérebro aprende ajuda a compreender por que determinadas práticas de ensino são necessárias.”


Joarita Nazaro Dauwe



Referências

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